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terça-feira, maio 22, 2007

PROVEDORIAS no DN Crónica de hoje

A FORMAÇÃO CONTÍNUA DOS JORNALISTAS



JOSÉ CARLOS ABRANTES
provedor dos leitores


1 Começou ontem, em Boston, a conferência mundial dos provedores. O DN é o único órgão de comunicação social português presente. Nem o Público nem a Rádio Televisão de Portugal, através dos provedores da rádio ou da televisão, se fizeram representar na conferência que está a decorrer. Já em 2006 o DN foi o único delegado de Portugal na conferência organizada pela Folha de S. Paulo, do Brasil. O mesmo aconteceu em 2004, quando a conferência teve lugar na prestigiada escola de jornalismo do Poynter Institute, em St. Petersbourgh/EUA. Nestes últimos quatro anos só o Jornal de Notícias, jornal também propriedade da Global Notícias, se fez representar por Manuel Pinto, em 2005, em Londres.

O DN é não só um jornal que tem escrito a história portuguesa recente (1) como também tem estado atento às tendências do futuro, em particular no jornalismo. Vale a pena dizê-lo e repeti-lo, pois a memória dos homens é curta. O DN é considerado, por vezes, um jornal oficioso, injustamente. Não se pode esquecer esse papel, anos a fio, de alinhamento com a ditadura. Mesmo, em tempos mais recentes, houve tentativas para que novas ditaduras se tornassem reais. Simultaneamente, esquece-se, por exemplo, o tempo em que o DN foi dirigido por Mário Mesquita, época em que as pressões do partido, então no poder, não conseguiram demover a firmeza e frontalidade do então jovem director. E lembro este exemplo só por ser, provavelmente, o mais paradigmático da História recente. Mas o que conta para os "biógrafos" é uma história saída dos preconceitos ideológicos e não do acompanhamento empírico da realidade. Este tratamento é tanto mais evidente quanto, ainda hoje, se considera, com excessiva complacência, o alinhamento económico como factor tantas vezes decisivo na elaboração das notícias. A acusação de subserviência ao poder encontra arautos empenhados ao mais pequeno sinal de coincidência entre uma notícia e as posições de um qualquer assessor de imprensa. Ao invés, outras coincidências ou conflitos de interesses são calados de forma despudorada. Nuns casos como noutros, a voz da imprensa deve fazer-se ouvir, fortemente e sem restrições.

2 A conferência da ONO está a desenrolar-se na casa Walter Lipmann, nome familiar a quem estuda e pratica o jornalismo (2). A Nieman Foundation foi criada, na Universidade de Harvard, em 1937 a partir de um fundo de um milhão de dólares doado por um benemérito, Agnes Wahl Nieman (3). A ideia de Nielman não foi fácil de concretizar. Apesar de tudo, em 1938 iniciou-se um programa de bolsas para jornalistas, com algumas reticências dos responsáveis de Harvard. O seu promotor quis elevar os padrões do jornalismo, dando especial atenção à formação contínua dos jornalistas, a jornalistas já com experiência. Infelizmente, a formação contínua de jornalistas em Portugal é completamente desprezada. Os jornalistas e decisores, na sua maioria, jogam ao faz-de-conta, fingindo que tal problema não existe. Desviam o olhar de domínios como a medicina, a saúde, a educação, os transportes, só para dar alguns exemplos. Neles se instalou há muito uma filosofia de formação para a vida, embora com evidente bolsas de resistência. No jornalismo faz-se crer que a falta de tempo explica o marasmo, a inacção, a falta de acompanhamento destas tendências do mundo moderno e das empresas jornalísticas bem organizadas. Os jornais podem ter mais leitores com melhores notícias se a formação contínua se tornar uma realidade diária para os jornalistas portugueses. Estes precisam de estugar o passo acompanhando as tendências mais actuais das empresas mais dinâmicas, de todos os domínios. A ideia de "aprender" toda a vida é o terreno da sobrevivência profissional e humana de uma das profissões do futuro, o jornalismo.

3 As crónicas de provedor por mim assinadas chegam ao fim no dia 12 de Junho. Depois de três anos, acabo o mandato que iniciei em 3 de Maio de 2004. O Estatuto do Provedor dos Leitores do Diário de Notícias define que a nomeação do provedor dos leitores vigora por um período de 3 (três) anos, não prorrogáveis. É uma boa solução. O director do DN deu-me conta da intenção de nomear novo provedor para o jornal, o que é uma boa notícia para os leitores e para a imprensa portuguesa. Se a imprensa vive bem sem os provedores, a imprensa e os media que convivem com a crítica interna - e pública - dos provedores merece um especial aplauso e, estudos indicam, maior aceitação e credibilidade.

Dado que tenho bastante correio em tratamento, solicito aos leitores, se possível, que não enviem novo correio depois de 31 de Maio.|

(1) Esta ideia tem sido defendida por José Medeiros Ferreira.

(2) http/www.nieman.harvard.edu/

BLOCO NOTAS

Ian Meyes, Presidente
Ian Meyes, presidente da ONO e ex-provedor do The Guardian (Inglaterra) apontou, na sua alocução (diferida) de boas vindas, o trabalho de três sub-comités que tinham sido activados em S. Paulo. Um desses grupos diz respeito a um código de ética para a Organização dos Provedores. Uma outra área que tem estado em discussão desde o ano passado é a de encontrar algumas instituições financiadoras adequadas ao critérios definidos e aos propósitos e finalidades da ONO. A terceira prioridade é de, sem descurar a tradição e dinamismo dos membros dos EUA, berço da ONO, ganhar “um braço mais longo” na internacionalização. Exemplo desta preocupação é dada pelo objectivo de realizar a primeira conferência na África do Sul, em 2010. Defenderei nos próximos dias da conferência a colocação de Portugal como destino possível. Esta passagem seria uma ponte com os países para os africanos, mesmo que a conferência prevista para a África do Sul tenha que ser adiada para 2011 (em 2008 será a vez da Suécia). Segundo Meys, a experiência dos provedores encontra cada vez mais interesse a nível mundial. Rússia, Arménia, Jordânia, Finlândia foram países que recentemente acolheram o presidente da ONO.

Ainda a Nieman Foundation
Actualmente, o programa da Nieman’s Foundation internacionalizou-se e metade dos 24 bolseiros anuais vêm de fora dos EUA. O curador da Fundação, Bob Giles, que esteve no acolhimento aos conferencistas, afirma que mais de 1000 jornalistas de um total de 72 países já obtiveram bolsas destas instituição.
Desde 2001 que o jornalismo narrativo mercê especial atenção.
No site da Fundação estão as condições das candidaturas.

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