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terça-feira, maio 08, 2007

PROVEDORIAS Hoje, no DN

(O) 'DN JOVEM'José Carlos Abrantes
provedor dos leitores
provedor@dn.pt

"Venho por este meio, e muito humildemente, expressar a minha opinião e preocupação com o rumo que tenho visto o DN Jovem levar nos últimos anos e sobretudo desde finais de 2005 até ao presente.

Há muitos anos, talvez há mais de dez, que sou leitora assídua e dedicada do DN Jovem, tendo sido sempre meu sonho e objectivo participar neste segmento. (...) É com desagrado e crescente tristeza que tenho visto não só a qualidade do trabalho apresentado diminuir, como o espaço que o próprio segmento ocupa no jornal, sendo que ou nem sequer surge ou, quando surge, são tão parcas as contribuições seleccionadas que grande parte do espaço que resta é dedicado a anúncios.

Houve toda uma série de motivos que me levaram a não voltar a contribuir para o DN Jovem, desde o ano passado, dos quais passo a referir alguns: ter, na qualidade de maior crítica de mim mesma, lido textos que considero muito aquém do grau de qualidade que penso que deveria ser exigido e, comparando-os com os meus próprios textos, não ter neles visto nada com que pudesse aprender ou que me cativasse minimamente (o que não significa que julgue a minha escrita superior, até porque participei apenas quando estava certa de que tinha, pelo menos, feito algo 'bom'); por outro lado, salvo algumas raras preciosidades, não brilham os meus olhos ao observar as fotografias e ilustrações que por lá encontro, muitas são desprovidas de amor pela arte e mesmo pela vida, sendo apenas medíocres reflexos de quem obviamente não tem seguido o DN Jovem desde há alguns anos atrás e, logo, pensa que qualquer coisa servirá (até que ponto poderei censurar essas pessoas? Não é a seu cargo que se encontra a selecção); continuo sem encontrar razão para o facto de o segmento ocupar (quando ocupa) somente uma página da revista, e de a mesma ser partilhada com anúncios; uma outra questão é o site, que não evoluiu como a revista e que é antiquado, pouco atractivo e funcional numa altura em que revistas online têm um papel tão importante na dinamização e na união e aumento da criatividade (por permitirem a cada qual expor os seus trabalhos e aprender com o dos outros) entre os jovens e mesmo adultos. (...)

O Diário de Notícias chegava-me através do meu pai, leitor assíduo, que sempre me entregava o DNJ... por várias vezes recortei textos, em prosa ou verso, das páginas do DN e os guardei por entre as folhas dos meus cadernos, para que me acompanhassem para todo o lado e para com eles poder aprender, a cada leitura. O único que sobreviveu aos anos e ao fim dos cadernos foi um recorte sem nome (na altura nunca me importava com quem escrevia, apenas com o que escrevia) de um poema intitulado No Tempo em Que, que, como deverão lembrar-se, é da autoria de José Luís Peixoto e parte integrante do seu livro de poesia A Criança em Ruínas. Ora, quero com isto dizer que tal poema foi por mim decorado, analisado, lido e acarinhado durante muitos, muitos anos (...). Como José Luís Peixoto, haverá outros e outras, assim como deverá haver em relação a mim. Mas, pergunto-me, até que ponto não estaremos a desaparecer? Certamente que nem todos seremos grandes escritores ou artistas e que essa responsabilidade não deve ser atribuída ao DNJ, mas como não deixar de dar o nosso melhor e de querer ser sempre melhores do que na vez anterior?

E como ignorar que o DNJ é, de facto, uma boa oportunidade de se subir mais alto?

(...) O que aconteceu ao DN que ajudava a criar escritores? (...) Não creio que as coisas estejam bem e, acreditem, há muito tempo que venho adiando estas palavras, na esperança de ver melhorias. No entanto, não posso continuar a fazê-lo.

Lamento imenso ter visto algo que eu admirava chegar a este ponto em que, acredito, necessita de urgente remodelação e salvação.

Acredito que não serei a única a partilhar esta opinião, que, repito, aqui exponho humildemente, em jeito de crítica construtiva (com duas faces, pois também eu devo reflectir, enquanto leitora e colaboradora, no que posso fazer para melhorar) e na posição de alguém que tem um profundo amor por tudo o que possa ter um impacto tão forte, unificador e duradouro na vida das pessoas, melhorando-as de inúmeras maneiras, como acredito que o DNJ ainda pode voltar a ser, quem sabe mais do que nunca.

(...) Para quando uma mudança?"

A frescura da reflexão justifica a excepcional extensão da citação do e-mail. Também é muito importante a afirmação de que há hoje, felizmente, muitos jovens que lêem e escrevem, ao contrário de certas ideias feitas que só gostam de nivelar por baixo (1). Em 140 anos, o Diário de Notícias escreveu mais História do que qualquer outro jornal em Portugal. O DN agora tem o desafio do presente: cativar mais leitores, entre os quais jovens. Não pode deixar-se adormecer por um passado tão rico. Os jovens e outros públicos devem encontrar motivos, todos os dias, para abrir o jornal, encontrando diferentes enriquecimentos e novos desafios. E o enriquecimento literário, de primeiro contacto, de exemplo, de escrita literariamente apurada, tem de encontrar mais exemplos. O que implica que o jornal, pensado para todos os públicos, pode ter momentos de maior rigor "literário". E cautelas acrescidas em secções que têm tomado o freio nos dentes, nomeadamente os Classificados. Importa também considerar a imagem do jornal na Rede, limpa e magra, mas sem capacidade de atracção para públicos jovens, o que está a ser pensado e em decisão. O diálogo com as escolas é uma prioridade que predico desde os anos 90, altura em que chegou a estar planeado um DN Educação, com o director Dinis de Abreu. Os rumos foram outros, infelizmente. Existe ainda um vazio nesta área, cerca de 15 anos depois. E vazia está também a Galeria Diário de Notícias, local onde poderiam ser instalados alguns computadores que permitissem a jovens criar algumas páginas do jornal. Seria uma rede para os jovens, para as escolas, para o futuro. Teria mais eficácia na formação dos jovens do que todas as novelas que as televisões venham a fazer, com ou sem apoio do DN.

O futuro só existe pelo presente que vivemos.

Nota: Colocarei alguma informação adicional em http/sotextosmesmo.blogspot.com/. O DN Jovem será analisado em mais pormenor, noutra crónica, provavelmente a publicar online.

(1)Arriscar-me-ia a dizer que há hoje, incomparavelmente, mais crianças e jovens que lêem do que as que existiam na tão apregoada "excelente" escola da ditadura e, mesmo durante longos anos, na democracia. Na primeira, o crivo era implacável, atirando a esmagadora maioria das crianças para a lavoura, trabalho familiar e outros trabalhos desqualificados (caso do "emprego" em Lisboa para os filhos da população rural). No pós-25 de Abril, a democratização do acesso, ainda hoje não plenamente conseguida, demorou a instalar-se.|