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terça-feira, maio 15, 2007

MUDANÇAS....Provedorias no DN

José Carlos Abrantes

Os leitores têm dado opiniões muito diversas sobre as mudanças ocorridas recentemente no DN.

Uma leitora, Maria Augusta Oliveira (28/04), escreveu: "Se eu tivesse de assumir a direcção de um jornal, o modelo actual do Diário de Notícias não me traria a tentativa da influência em que sempre se vai beber quando se quer empreender.

De um jornal não se espera demasiadas imagens. As imagens não são argumentos decisivos. Certo, tal como nas gravuras que acompanham um texto complicado, as imagens podem servir de apoio ou de guia à inteligência, mas a sobriedade na sua utilização dá distinção à imagem de um jornal cuja preocupação seja transformar a sensação em consciência.

Palavras, torrentes de palavras de excelentes colaboradores como o DN sempre teve para o prazer de ler um jornal! - assim é, por exemplo, o Le Monde.

O actual Director do DN trouxe consigo, ainda que com alguma cautela, o estilo de um jornal que não casa com aquele que fez a boa imagem do DN, o que é natural, uma vez que, antes de se habitar dentro de casa, habita-se dentro de si mesmo - natural é, mas pena também.

Assim, também, os assuntos que são chamados à 1.ª pág. se têm manifestado pouco apelativos, sendo a escolha, de entre as realidades, as 'suas realidades'."

O recurso à simulação "Se eu fosse director do DN", apesar de ser um exercício interessante, não tem efeitos práticos: cada director imprime o seu cunho ao jornal, sendo provável que outra pessoa, no seu lugar, fizesse escolhas diferentes. Este e-mail revela também aspirações a que o DN dificilmente pode corresponder: tal como Portugal não é a França, o DN não é o Le Monde.

Já mais complexa é a consideração feita pela leitora de que "de um jornal não se espera demasiadas imagens. As imagens não são argumentos decisivos." O papel das imagens é um terreno de oposições muito marcadas. O jornal citado, o Le Monde, é aliás disso um bom exemplo. O formato em que as imagens estavam ausentes foi considerado ultrapassado e pouco apto a responder aos desafios do mercado francês, sendo portanto abandonado. Na altura, esta mudança deu origem a abundante correio ao provedor (médiateur) do Le Monde. Hoje, o jornal usa as imagens com frequência e, por vezes, em grande destaque. O argumento da leitora faz crer que as imagens são elementos de segunda ordem, comparados com a palavra escrita, excelsa e inultrapassável. Ora muitos leitores e pensadores estão longe de validar tal visão das coisas, considerando que a imagem tem uma dignidade própria e um papel decisivo na imprensa de hoje. Podemos lembrar, com José Pacheco Pereira, que as imagens ocupam mais espaço de um disco duro do que o texto, e que isso se deve também à sua grande complexidade informativa.

"O actual Director do DN trouxe consigo, ainda que com alguma cautela, o estilo de um jornal que não casa com aquele que fez a boa imagem do DN, o que é natural uma vez que, antes de se habitar dentro de casa, habita-se dentro de si mesmo - natural é, mas pena também." Ainda bem que a leitora usou o termo cautela, matizando o juízo mais definitivo que depois adianta. De facto, a prudência exige que não se reproduzam chavões e juízos automáticos. Agrilhoar as pessoas ao passado, sem lhes deixar margem de manobra e autonomia, é, claro, mais fácil do que avaliar os resultados das suas acções. Evitar estes atalhos tem benefícios. É complicado reformar uma instituição, sobretudo com uma história tão antiga como tem o DN. Os leitores criaram hábitos. Uma das dificuldades das novas direcções tem sido a corrida contra o tempo, que se insere no quadro do declínio gradual do número de leitores de jornais. O DN necessita de manter os leitores tradicionais e tentar simultaneamente alargar o seu público, o que é obviamente difícil e nem sempre foi conseguido nestes três últimos anos.

O leitor Jorge Galvão Videira (05--05-2007) sintetizou de outra forma as mudanças recentes no DN: "Na minha opinião houve algumas alterações que melhoraram o DN, como sejam:

- Organização do jornal, que facilita a leitura;

- Criação das faixas - o que vai acontecer hoje e amanhã

- Suplementos melhores, sendo de realçar o de Economia, com melhor organização e apresentação.

Também há aspectos, e alguns importantes, que pioraram, a saber:

- Sensacionalismos na 1.ª pág., o que não se coaduna com um "jornal de referência"; hoje há três Correio da Manhã (o próprio, o Público e o DN). O destaque, na 1.ª pág. dado a notícias como a operação do Eusébio ou a derrota de Mourinho é superior ao dado no jornal A Bola.

- Viragem à direita em termos políticos, visível pela cessação de colaboração de alguns, bons, jornalistas (não compensada pelo fim do pesadelo que eram os artigos de Luís Delgado).

- Suplemento Gente, sem qualquer interesse."

Já me referi, em anterior crónica, ao relativo equilíbrio de algumas soluções gráficas, que introduziram roturas mas respeitaram, em geral, a tendência gráfica do jornal. A criação de "faixas" [na gravura do Bloco--Notas] é, de facto, uma mais-valia para os leitores, um verdadeiro ovo de Colombo que, presumo, vai ter muitos seguidores na imprensa. Estas "faixas" permitiram aos leitores situar-se, no dia-a-dia, nas inúmeras actividades que hoje atravessam a parte do País que pode estar atenta. No domínio das Artes, da Política, dos Media, da Economia. Os leitores sabem hoje mais facilmente onde podem aplicar algum tempo livre ou profissional com proveito. Neste domínio da divulgação da agenda dos acontecimentos, o DN está a fazer um excelente trabalho para o leitor.

Irei, em próximas crónicas, analisar a acusação de sensacionalismo, a mudança de cronistas, a intitulada "viragem à direita", a primeira e última página e a página do Editorial. Pena que restem tantos assuntos para as poucas crónicas agendadas.

BLOCO NOTAS

DN na ONO

A ONO (Organization of News Ombudsman) vai realizar a sua próxima conferência anual de 20 a 23 de Maio. Em Boston, nos EUA, vão reunir-se provedores de órgãos de comunicação de todo o mundo. Estarão representados 13 países. Até ao momento, dos órgão de comunicação social portugueses, estará representado apenas o DN. O tema da conferência é “ Provedores (Ombudsman) num tempo de transição”, mostrando que o mundo é composto de mudança, como escreveria Camões. A sessão onde irei falar “Is There a shared Watchdog Role for the Public, the Blogs and Ombudsman?” será moderada por Geneva Overholser, da Missouri School of Journalism e terá a intervenção de Jeff Jarvis, Blogger, autor de um blogue intitulado Buzzflash. Entre outros, intervirão Dan Ockrent, primeiro provedor dos leitores do New York Times. Ian Mayes, presidente da ONO e jornalista do The Guardian, dialogará com Bill Kovach, fundador do Committee of Concerned Journalists, que esteve recentemente entre nós. (ver o programa da Conferência e outras informações em http://sotextosmesmo.blogspot.com/)

Escreva
Escreva sobre a informação do DN para provedor2006@dn.pt: “A principal missão do provedor dos leitores consiste em atender as reclamações, dúvidas e sugestões dos leitores e em proceder à análise regular do jornal, formulando críticas e recomendações. O provedor exercerá, simultaneamente, de uma forma genérica, a crítica do funcionamento e do discurso dos media.”
Do Estatuto do Provedor dos Leitores do DN

Para outros assuntos : dnot@dn.pt|