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domingo, abril 29, 2007

PROVEDORIAS NO DN

O provedor também erra

A minha última crónica do Diário de Notícias chama-se de “Fonte (In)Segura”e é sobre as relações do jornalismo com as fontes políticas. Considero que os jornalistas usam as fontes anónimas em excesso. Um leitor, devidamente identificado, coloca o problema das fontes que deram origem a uma notícia sobre a Presidência da República a 6 de Abril. A crónica tinha referências à argumentação da jornalista: "A resposta da jornalista espanta. É preciso sublinhar que este não foi um desmentido qualquer, mas sim um desmentido categórico. Como pode continuar a dar-se confiança a uma fonte oficiosa que, apesar de próxima da Presidência, poderá ter interesse em divulgar informações incorrectas à imprensa? Haverá precedentes de desmentidos categóricos seguidos de uma mudança na posição oficial da Presidência, invalidando o desmentido? A prudência deveria ter sido e, sobretudo, deverá ser, maior, para o futuro. O verdadeiro problema não é se a jornalista mantém a confiança na fonte. É se os leitores mantêm ou perdem a confiança no jornal."

Na crónica escrevi o seguinte:
“A resposta da jornalista espanta. É preciso sublinhar que o desmentido não foi um desmentido qualquer, mas sim um desmentido categórico. Como se pode continuar a dar confiança a uma fonte oficiosa que, apesar de próxima da Presidência, poderá ter interesse em divulgar informações incorrectas à imprensa? Haverá precedentes de desmentidos categóricos seguidos de uma mudança na posição oficial da Presidência, invalidando o desmentido? A prudência deveria ter sido e, sobretudo, deverá ser, maior, para o futuro. O verdadeiro problema não é se a jornalista mantém a confiança na fonte. É se os leitores mantêm ou perdem a confiança no jornal.”

Igual posição sobre as fontes tem sido tomada por outros provedores da imprensa. Os códigos deontológicos e os livros de estilo também não dão tréguas a esta prática, usada, demasiadas vezes, para ser credível.

Mas a prudência deveria ter sido maior no meu escrito tal como predicava para a jornalista. Escrevi sem ter acesso ao despacho da Lusa, acesso que faz falta e não tem estado previsto.
A minha resposta continha um erro. Considerei que o “desmentido categórico” de fonte oficial existiu , quando, na verdade, se tratou de uma afirmação de uma fonte encoberta e divulgada por uma agência de notícias. Se a utilização destas fontes já é pouco aconselhável nos jornais, o papel de uma agência de notícias é de responsabilidade ainda maior. O despacho que contém este desmentido é algo que não enobrece o trabalho da agência, nem as fontes (anónimas) de Belém. “Continuo a manter a confiança nas referidas fontes, apesar do desmentido que foi feito, também por uma "fonte" de Belém à agência Lusa“. Esta frase da jornalista passou sem o devido valor na crónica. De facto, atribuí um valor indevido ao desmentido pois as aspas postas pela jornalista advertiam para a precariedade da fonte da Lusa (“fonte de Belém à agência Lusa”).

Na ausência de um desmentido categórico oficial da Presidência da República ou de fontes claramente assumidas, é difícil saber onde está a verdade. A fonte da jornalista não pode ser considerada mais ou menos fiável do que a da agência Lusa. O provedor também erra. Ele pode relembrar que o trabalho jornalístico não deveria aumentar a capacidade de manobra dos que fazem política na sombra. A utilização generalizada de fonte anónimas é isso que encoraja. É um daqueles casos em que o todo não é igual à soma das partes.


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Eis a crónica de 24 de Abril de 2007

DE FONTE (IN)SEGURA


José Carlos Abrantes
provedor@dn.pt

As fontes fazem as notícias, sustentam alguns grandes conhecedores do jornalismo. Esta apreciação, um tanto exagerada, chama a atenção para um dos aspectos mais importantes desta actividade. A rede de contactos dos jornalistas, construída dia a dia, é um dos seus instrumentos de trabalho mais preciosos. A partir dela, conhecem e confirmam factos novos, testam hipóteses, tentam compreender os acontecimentos. Na época actual, outras fontes têm ganhado relevo, além das tradicionais. As agências de comunicação têm peso na construção da narrativa jornalística e adquiriram importância crescente nos últimos anos. Outras fontes institucionais organizaram-se melhor que os jornalistas. A televisão e a imprensa escrita e online, bem como a rádio, funcionam como fontes recíprocas nas diferentes horas do dia. Os blogues têm também mostrado capacidade de desencadear algum sobressalto cívico e alguma inquietação informativa. Que o diga José Sócrates, nosso primeiro-ministro. No que diz respeito à polémica sobre os diplomas, a imprensa portuguesa separou águas ao citar a blogosfera como origem da notícia, como fez o DN. No caso de hoje, interessam- -nos as fontes políticas.

Um leitor, devidamente identificado, coloca o problema das fontes que deram origem a uma notícia sobre a Presidência da República a 6 de Abril. "(...) Lê-se hoje 'Cavaco prepara resposta', sem que, concluída a leitura do artigo, em que é citada uma fonte anónima, alegadamente 'próxima de Belém', fique a perceber-se que resposta prepara o PR.

Para que o texto não fique 'coxo' e curto para honras de manchete, são ouvidos dois sociólogos, um dos quais membro da Comissão de Honra da candidatura de Cavaco Silva. Comissão de Honra essa que, se não ultrapassou o milhar de pessoas, integrou seguramente algumas centenas. Que legitimidade acrescida assiste ao referido sociólogo para interpretar e até 'adivinhar' o sentido da intervenção presidencial (em que, repito, o artigo é omisso)?

Fica-me portanto a nítida sensação de 'ter ido ao engano' e de o título do artigo (ambos) ter despertado em mim uma curiosidade que não ficou minimamente satisfeita após a leitura do mesmo. Em linguagem popular é aquilo a que vulgarmente se chama 'vender gato por lebre'."

O leitor, num e-mail adicional, acrescenta : "(...) Escrevi a primeira mensagem ainda antes de ter tomado conhecimento do desmentido pela Presidência da República de que o assunto da licenciatura do primeiro- -ministro foi alvo de discussão, análise, entre o Presidente da República, Cavaco Silva, e os seus mais directos colaboradores.

Na minha opinião, e ainda que um desmentido oficial (ainda mais tratando-se do Chefe do Estado) seja por si só castigo e descrédito suficientes para o órgão de comunicação social em causa e, sobretudo, para o jornalista que assina o artigo, mais pertinente se torna o meu reparo."

A jornalista Paula Sá enviou a seguinte explicação: "O jornalismo de qualidade raras vezes deve assentar em fontes anónimas. É nessa prática que me revejo ao longo dos meus 18 anos de trabalho, a maioria dos quais como jornalista da área política. Contudo, a prática leva-nos muitas vezes a ter de abrir excepções quando os assuntos são tão delicados quanto o que o leitor menciona.

Faço a cobertura da Presidência da República e foi-me solicitado pela editoria da secção que investigasse como Belém estava a encarar o 'caso da licenciatura do primeiro-ministro'. O DN ouviu duas fontes ligadas à Presidência, que considerámos idóneas, que nos garantiram que o Presidente teria trocado impressões com os seus colaboradores mais próximos por estar preocupado com as repercussões da polémica nos assuntos correntes da governação, como seja o bom ritmo das reformas. Como é óbvio, as mesmas fontes pediram-nos para não serem citadas pelas consequências que daí poderiam advir para a sua ligação a Belém.

Continuo a manter a confiança nas referidas fontes, apesar do desmentido que foi feito, também por uma 'fonte' de Belém à agência Lusa."

A resposta da jornalista espanta. É preciso sublinhar que este não foi um desmentido qualquer, mas sim um desmentido categórico. Como pode continuar a dar-se confiança a uma fonte oficiosa que, apesar de próxima da Presidência, poderá ter interesse em divulgar informações incorrectas à imprensa? Haverá precedentes de desmentidos categóricos seguidos de uma mudança na posição oficial da Presidência, invalidando o desmentido? A prudência deveria ter sido e, sobretudo, deverá ser, maior, para o futuro. O verdadeiro problema não é se a jornalista mantém a confiança na fonte. É se os leitores mantêm ou perdem a confiança no jornal.

Bloco-notas

Anteriores provedores

Num período de balanço de três anos de provedoria podemos olhar além do caso individual. Os diferentes provedores do DN têm-se confrontado com situações similares ao longo dos dez anos de provedoria. Mário Mesquita escreveu uma crónica intitulada Perfil do 'jornalista de fontes', Diogo Pires Aurélio analisa sete casos relacionados com fontes (entre elas "Fontes de descrédito" e "Fontes anónimas"), Estrela Serrano seis (entre elas "A notícia do rumor" e "A regra do off" (1). Os casos são diferentes uns dos outros, mas a permanência do tema é evidente. Como resolver? Talvez não seja resolúvel. Talvez tenhamos de considerar este problema como um "flagelo" permanente, como existem os mortos na estrada ou carros em cima dos passeios. Mas, para manter uma relação de confiança com os leitores, devemos evitar a indiferença. O problema não é só dos provedores: estão implicados os redactores, os editores e os directores, e, em primeira linha, os leitores. No DN o recurso às fontes anónimas deve ser mesmo excepcional e não pretexto para a guerrilha política.

(1) Nos livros de crónicas já citados em anteriores artigos.

Correio sobre o novo DN

O correio dos leitores sobre as mudanças recentes do DN será analisado em próxima crónica. Se tiver opinião sobre este tema, envie-a por e-mail ou carta.