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terça-feira, abril 17, 2007

PROVEDORIAS Hoje, no DN



O ACASO NO JORNALISMO



José Carlos Abrantes
provedor@dn.pt

No princípio da passada semana, o DN noticiou o fecho provisório da Universidade Independente. Duas chamadas de primeira página, reforçadas por notícias no corpo das edições de segunda e terça-feira, deram relevo ao tema. Gonçalo Miguel, aluno da universidade, não gostou de uma delas: "'Alunos entre o desespero e a resignação com o fecho.' Assim noticiou o DN com uma foto de mau gosto, pois nada tinha a ver com a universidade mas sim com elementos do programa Vai tudo abaixo que passa na SIC Radical.

Neste momento as notícias que passam na imprensa é que os alunos querem que a universidade feche e querem ir para outras universidades. Tal não corresponde à realidade, ou a apenas uma minoria, pois as declarações que transcrevem são apenas de alunos do 1.º ano. Esses, sim, com razões para sair, pois podem ir para públicas sem perder muito. A maioria dos restantes alunos, como eu, está pela continuidade na universidade. Mas em todo o caso pede os certificados e faz pré-inscrições noutras universidades para salvaguardar a hipótese de o ministério fechar definitivamente a UnI. Mas o que queremos é a continuidade, como ficou demonstrado com a 'Carta Aberta' assinada pelos alunos da UnI."

O jornalista Pedro Sousa Tavares lembra que a responsabilidade da edição da fotografia não lhe pertence. Sabemos que isso não invalida uma responsabilidade partilhada dos editores e de outros responsáveis do jornal. Embora a questão colocada seja interessante, escolhemos não a desenvolver neste artigo, remetendo para um breve apontamento no Bloco-Notas e no Só Textos (1).

O jornalista prossegue: "Quanto às críticas em relação ao título confesso que, sinceramente, não as entendo. A frase 'entre o desespero e a resignação' refere-se à reacção dos alunos ouvidos pelo DN ao anúncio, pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, do encerramento compulsivo da instituição. Não sei como o leitor depreende da mesma que se queira passar a imagem de que 'os alunos querem que a universidade feche e que querem ir para outras universidades'. Sobretudo, porque esta frase, em si mesma, dá conta de dois estados de espírito distintos: o 'desespero' dos que pretendiam prosseguir os seus estudos na instituição e a 'resignação' dos que, por precaução, começaram já a tratar do seu futuro noutras paragens.

O próprio leitor reconhece, na sua carta, que até os alunos que estão 'pela continuidade' da instituição pedem os certificados e fazem pré-inscrições noutras universidades 'para salvaguardar a hipótese de o ministério fechar definitivamente a UnI'. É a essa realidade que o artigo faz referência. Não a qualquer desejo dos alunos. De resto, parece-me altamente improvável que algum estudante, no seu perfeito juízo, queira que a instituição onde estuda seja alvo de um encerramento compulsivo a meio do ano lectivo.

Uma nota final em relação às pessoas citadas no artigo. Os alunos que figuram na notícia são os que acederam a falar com o DN e com os outros jornalistas que se encontravam à entrada das instalações da UnI naquela tarde. O facto de serem todos estudantes do 1.º ano não é fruto de uma escolha deliberada, mas do acaso. Convém, no entanto, referir que a imprensa foi impedida de entrar na universidade, tendo ficado limitada ao trabalho de reportagem à porta da instituição."

A resposta do jornalista parece equilibrada. A resignação e o desespero do título sublinham os estados de espírito dos que partem sem hesitação e dos que prefeririam, por razões óbvias, continuar os estudos. O jornalista acentua também as dificuldades da reportagem, pois a imprensa terá sido impedida de entrar na universidade. A sua análise é até mais desapaixonada do que a do leitor e dá informações sobre o contexto e os constrangimentos do trabalho dos jornalistas. No entanto, esse condicionamento não é facto novo para os jornalistas, pois esta é uma profissão que lida permanentemente com ele. Por isso, compreende-se mal que se deixe ao acaso a definição das pessoas ouvidas. É natural que se ouçam os estudantes que estão por acaso no local, mas a tarefa do jornalista é encontrar as pessoas e dados pertinentes para que o leitor tenha a informação exacta. O acaso é essencial para o jornalismo, pois define acontecimentos e intervém nos relatos. Por outro lado, o trabalho jornalístico é o oposto desse acaso, pela necessidade de estruturar a estória que se conta e de encontrar novas informações ou novas fontes que acrescentam algo - significativo - ao que o acaso trouxe. Claro que o pouco tempo disponível entre a decisão do assunto e o fecho torna esse trabalho, por vezes, difícil de cumprir.

(1) Ver mais no Só Textos em http/ sotextosmesmo.blogspot.com


BLOCO NOTAS


O que se diz da imagem
“A escolha da imagem não é minha, por isso não me vou alongar sobre esse tema. Creio, no entanto, que convém frisar que a fotografia é acompanhada de uma legenda onde se diz, com clareza, que os protagonistas da mesma nada têm a ver com a universidade. De resto, a desapropriada presença destes indivíduos na UnI - porque efectivamente estiveram lá naquele dia - é versada num texto publicado na mesma página.
Esta é a alusão feita pelo jornalista à inclusão da imagem referida pelo leitor. (2)

Pela primeira vez
Tenho publicado depoimentos completos num blogue de suporte. O espaço do jornal é limitado ao contrário da Rede. Pela primeira vez, incluo uma queixa do leitor na página web sem que o conteúdo seja desenvolvido no jornal papel.
(3)

O caso Sócrates
A questão hoje aflorada tem conexões com a recente polémica sobre diploma do primeiro ministro, concedido pela Universidade Independente. Considero que posição do DN tem sido informativa e sóbria, o que não deixará de ser apreciado pelos leitores.

A remodelação do DN
O DN apareceu com nova imagem há cinco dias e com novas propostas de leitura. O novo jornal tem uma matriz mais noticiosa, o que dará mais trabalho ao provedor, visto que o seu mandato não inclui os artigos de opinião. Há também grandes mexidas nos cronistas, saindo alguns colunistas “históricos” e entrando novos rostos. Seria prematuro qualquer juízo sobre a nova fórmula do jornal, pois a nova versão encontra-se há muito pouco tempo nas bancas. De salientar que, graficamente (imagem e texto), o jornal está mais “leve” mas manteve mesmo assim a matriz histórica. Esta dupla nem sempre foi fácil de conciliar nas sucessivas remodelações ao longo dos anos.
(1)(2)(3) Ver mais no Só Textos em http://sotextosmesmo.blogspot.com/).

Escreva
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