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quarta-feira, abril 04, 2007

CORREIO PERDIDO Crónica

José Carlos Abrantes

O fermento democrático a que o DN se habituou há décadas foi uma prática diária dos jornalistas e direcções que tenho acompanhado no exercício do meu cargo.

Depois de alguma ponderação, optei por fazer uma crónica sobre algum correio que recebi e ao qual não pude responder em Fevereiro e Março. A entrada de uma nova equipa directiva coincidiu com um impedimento de ordem pessoal que me afastou temporariamente da escrita. Ou seja, não pude dar seguimento em tempo útil a uma
parte do correio dos leitores. Deixou de ser possível obter respostas de responsáveis que entretanto deixaram de ser. E o provedor tem obrigação de consultar a equipa de direcção e os jornalistas para mediar entre as críticas dos leitores e as escolhas que foram efectuadas antes da publicação do artigo. Decidi mesmo assim dar sequência a esse correio (1). A minha função é devolver ao jornal as objecções dos leitores, sobretudo nas questões éticas e deontológicas. Embora não tenha podido utilizar, como habitualmente, as justificações dos jornalistas, dos editores, procedimento essencial no diálogo público dos leitores com os jornalistas, escolhi responder ao correio. Afinal o fermento democrático a que o DN se habituou há décadas, foi uma prática diária dos jornalistas e direcções que tenho acompanhado no exercício do meu cargo. As queixas que recebi e as reflexões que fiz sobre o campo mediático, deixaram entrever, quando muito, erros que todos cometemos, mesmo numa democracia consolidada. Não se deve tomar a nuvem por Juno. Sobretudo, analistas traquejados deveriam ter suficiente ponderação para não fazer crer que a democracia começa e acaba neles próprios.
Voltemos ao correio dos leitores. Um dos assuntos que inquietaram ou criaram expectativas foi a mudança de direcção. Uma leitora, Catarina Grilo, escreveu a 16 de Fevereiro: “de facto o DN é actualmente o meu jornal de eleição. Comprei-o quase diariamente durante a campanha para o referendo de 11 de Fevereiro, pois de facto fez uma cobertura equilibrada dos assuntos em discussão. Lamento muito que critérios económicos tenham vencido os de qualidade jornalística. Resta-me esperar que a qualidade do jornal não decaia.” Em sentido inverso, outro leitor, José Nascimento, escreveu, dias antes (11-02): “Venho pelo presente protestar pela forma cada vez mais tendenciosa como o DN vem sendo política e socialmente orientado, revelando pouca independência da sua actual Direcção e Redacção.” O leitor dava depois um exemplo de duas primeiras páginas do DN, uma das quais era a reprodução do boletim de voto do referendo sobre o aborto.
Numa apreciação que pedi a Rogério Santos, investigador do campo dos media, este considerou uma das primeiras páginas como tendo laivos de sensacionalismo, mas a outra como absolutamente isenta: o jornal tomou partido pela responsabilidade e pelo apelo à participação cívica. Foi, talvez, o melhor jornal do dia, nesse sentido. Nada no texto pressupõe um apelo ao voto no sim ou no não. A posição correcta da direcção do jornal continuou no dia seguinte ao da votação: usando um mesmo tipo de grafismo, o jornal informou os resultados.” Outra investigadora, Cristina Ponte, também considera a primeira página sobre o referendo, longe da manipulação: “No caso do boletim de voto, achei uma capa até curiosa, pelo apagamento da informação, dando toda a visibilidade ao boletim, sem mais nada. Só se ele considera manipulação ter dado tanto destaque ao acontecimento em si...”
Noutra carta, manuscrita, de 28 de Fevereiro, quando era director interino Miguel Gaspar, o leitor Luís Franco Nogueira manifesta a sua fidelidade ao Diário Notícias: “sou leitor desse jornal desde a época aproximada de 1930, há cerca de 77 anos.” E o leitor considera que o jornal “tem estado a resvalar, a insistir (desnecessariamente, repito, desnecessariamente), em assuntos escabrosos de pornografia, sexualidade e prostituição.” O leitor invoca casos ocorridos neste período de transição, alguns dos quais teriam merecido a troca de argumentos entre a direcção, os editores, jornalistas e o provedor, caso não tivessem ocorrido num período conturbado da vida do jornal. Foi mencionada nomeadamente a imagem de uma estátua onde se via um grande plano de um órgão genital masculino, publicada em 26 de Fevereiro. A imagem vale, por vezes, mais pela capacidade de evocar os objectos do que pelo seu valor representativo ou realista. Este caso ilustra a preocupação de alguns leitores do DN para quem o jornal também é feito. Podemos interrogar-nos se haveria, em imagem, uma alternativa mais adequada à informação que se ptrendia transmitir.
Marlene Antunes dos Santos, em 15 de Fevereiro, indigna-se com uma notícia, datada de Janeiro. Uma jornalista , ao nomear as seis freguesias do concelho do Seixal, enumera apenas uma dessas freguesias correctamente. A peça dá ideia que o jornalismo pode ser equiparado a uma ciência da adivinhação. Mas os leitores, cuja vida decorre naquele concelho, sabem que não é assim.
(1) Ainda terei de voltar numa crónica posterior a algum do correio deste período.


BLOCO NOTAS


Primeiras páginas
O investigador do campo dos media Rogério Santos, a quem pedi opinião sobre as primeiras páginas assinaladas pelo leitor José Nascimento, teceu considerações apropriadas e que vale a pena conhecer na integra. Por isso disponibilizo o texto. O trabalho de Ricardo Nunes sobre o DN em linha, referenciado na crónica anterior, também foi colocado no mesmo endereço.

Pedido de esclarecimento
“(...) Queria saber se nos vossos anúncios dos classificados online estão também os que estão anunciados no vosso suplemento Economia.
Nomeadamente no DN de 15 de Março saiu no suplemento económico, um anúncio escrito em alemão da Lidl que não consigo encontrar online. Podem ajudar-me a esclarecer esta dúvida?”
Em rigor trata-se de assunto que não respeita ao provedor. É necessário criar um e-mail de equivalente visibilidade ao do provedor, a quem os leitores possam dirigir os seus pedidos de esclarecimento. Normalmente dirijo ao secretariado da direcção este correio. O director João Marcelino fez chegar rápida resposta ao provedor. Transcrevo-a pois já outros leitores me questionaram sobre o mesmo tema: “Os anúncios que surgem no nosso site são provenientes, e só, do caderno de classificados; mesmo aqui há anúncios que são excepcionados, como sejam, por exemplo, os de página inteira e os da casa. Todos os anúncios que estão paginados no caderno principal e economia não são remetidos para o site.”
Foi também entregue à Direcção de Marketing um problema levantado por um leitor que arranjar fascículos de uma colecção. Tenhamos presente, que, para o nosso papel no jornal, o mais importante são as questões éticas e deontológicas, ainda ausentes do questionamento dos leitores . Mas é positivo obter boas respostas, noutros sectores.



Escreva
Escreva sobre a informação do DN para provedor2006@dn.pt: “A principal missão do provedor dos leitores consiste em atender as reclamações, dúvidas e sugestões dos leitores e em proceder à análise regular do jornal, formulando críticas e recomendações. O provedor exercerá, simultaneamente, de uma forma genérica, a crítica do funcionamento e do discurso dos media.”
Do Estatuto do Provedor dos Leitores do DN

Para outros assuntos : dnot@dn.pt