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segunda-feira, janeiro 15, 2007

Uma excepção (infelizmente) portuguesa

O Público insere hoje um artigo, de minha autoria, sobre os comentadores políticos da RTP1. O jornal já tinha o artigo há algum tempo em carteira. Hoje posso acrescentar duas coisas: a entrevista de Ricardo Araújo Pereira é um bom exemplo de uma lufada de ar fresco que Judite de Sousa introduziu na Grande Reportagem. Foi com algum prazer que se descobriu como é que o Gato Fedorento e o Ricardo se situam no Portugal de hoje e na criação televisiva. O outro aspecto é que considero que não se pode comparar o comentário político específico e dizer que essa variedade existe na Grande Reportagem, no Por Outro Lado ou noutras rubricas da RTP. Poder pode. Mas estão a misturar-se alhos com bugalhos. O que conta é que poderia haver um comentário à situação do pais, mais variado do que existe actualmente, e que beneficiaria os portugueses. Imagine que um dia a situação do país era lida por Júlio Machado Vaz, noutro por Formosinho Simões, noutro por Lídia Jorge, noutro por Kátia Guerreiro? Veríamos variedade, aquilo que a RTP deve assegurar no pensamento e nas accções.

"Parece mentira, mas passa-se em Portugal". Este é um comentário de um jornalista da France Inter, uma rádio francesa, no relato de um programa dedicado aos costumes de outras paragens. De que se trata? De uma "excepção portuguesa" daquelas dificilmente compreensíveis lá fora: o comentário político na televisão em Portugal, especialmente na de serviço público. "Visibilidade extraordinária", "trampolim sagrado", "mistura de géneros" são expressões que se ouvem ao longo da peça, elaborada com o depoimento de um jornalista francês residente em Portugal. Em Portugal, nem todos pensamos que estes comentários sejam um bom contributo para o esclarecimento dos cidadãos. Num colóquio recente em Coimbra, Manuel Maria Carrilho argumentou contra a presença do actual esquema de comentadores na RTP. O ex-ministro da Cultura tem razão: o actual sistema não é satisfatório. Porque não se justifica o actual tipo de comentário? Os dois comentadores actuais em actividade no serviço público, Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino, são duas figuras de topo na nossa vida política bem como profissionais muito qualificados. Porém, o que está em causa é que a televisão pública é financiada por todos os contribuintes e ambos os comentadores têm carreiras políticas notórias (tal como Paulo Portas, na SIC Notícias e ao contrário de Miguel Sousa Tavares, na TVI, o único comentário externo) . Tais comentadores são juízes em causa própria, o que não é boa posição para o comentário sobre os outros actores políticos, mesmo sobre a política, pois, assim, esta julga-se a si própria. Não são pessoas definitivamente retiradas da vida política, mas actores meio retirados que espreitam a melhor oportunidade. Como poderão representar a variedade inerente a um pensamento político muito alargado? Reconhecer-se-ão o PCP, o Bloco de Esquerda, o CDS e o PSD nos comentários dos dois analistas? Tudo isto é pouco razoável , quer visto do lado dos políticos, quer do lado dos espectadores. Não tenho mandato nem dos políticos, que se sabem defender e têm lugares próprios para tal, nem dos espectadores, agora felizmente "representados" por um provedor. Sou apenas um cidadão que , como tantos outros, pensa que os portugueses poderiam beneficiar, por financiarem uma televisão pública, de maior variedade de abordagens. Importa também não silenciar conflitos de interesse usualmente postergados para as brumas da memória.
O papel da televisão, e em especial da televisão pública, deve ser o de alargar o pensamento global, de aumentar a inteligência colectiva, de abrir novas perspectivas, plurais, contraditórias, diversas. Os ecrãs são lugares para trazer diversidade nos assuntos, nos modos de os pensar, nas pessoas que entram pelas casas dentro. A televisão pública deve mostrar o pensamento da nação que não se pode revelar apenas no pensamento a classe política. Alguns jornalistas costumam dizer que não há pessoas, que são sempre as mesmas, pois só um reduzido núcleo seria dono de à vontade televisiva e conhecimentos sólidos para divulgação. Não é verdade. Lembro os portugueses relativamente desconhecidos, ao lado de outros muito conhecidos e respeitados, que o Por outro lado, da Ana Sousa Dias, na :2, revelou. A televisão pública deveria mostrar, além da informação e debate político alargados, o modo como a nação pensa e vive. Todos teríamos algumas surpresas. Um esquema de comentário centrado na variedade dos campos profissionais e sociais, onde homens e mulheres tivessem lugar (hoje há quatro comentadores regulares..) , onde houvesse diversos estratos etários e sociais, seria bem mais útil ao país do que o actual, que afunila e vez de alargar, que reduz em vez de expandir. As televisões generalistas devem representar o país, não ser seu crivo redutor. Professor Universitário