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quarta-feira, janeiro 31, 2007

PROVEDORIAS no DN

Em busca da verdade
José Carlos Abrantes

Cabe aos profissionais da informação descobrir as dimensões da verdade, estimadas editorialmente relevantes.

A vida evolui a um ritmo acelerado e os media informam-nos sobre os acontecimentos mais importantes, quase instantaneamente. Noutras épocas, o relato do que acontecia era mais lento. Havia maior intervalo de tempo entre os acontecimentos e sua publicação. As notícias da Europa eram recebidas nos EUA muitos dias passados, nos meados do século XIX. Quando chegavam os grandes navios pejados de emigrantes, dispostos a tentar a sua sorte num mundo novo, os jornalistas de vários jornais nova-iorquinos, procuravam as novidades. Percebeu-se rapidamente que, em vez de cada jornal enviar os seus jornalistas aos cais de desembarque, seria mais fácil uma acção colectiva. Foi assim que se criou a Associated Press, em 1848, uma associação para recolher e distribuir a informação pelos jornais de então. Foi decisivo o esforço colectivo de dez homens, representantes de seis jornais. Ainda hoje as agências de imprensa recolhem e distribuem, agora de uma forma permanente e quase instantânea, informação para todos os órgãos de comunicação. Actualmente, a informação é muito volátil pois novos desenvolvimentos podem justificar-se lago após a publicação de um notícia ou de outra peça. Foi o que se passou com a última crónica publicada.
Um leitor questionou sobre a não publicação do nome de um juiz, que havia, tal como um jogador de futebol excedido a taxa de alcoolemia permitida. A jornalista deu prontamente os esclarecimentos solicitados pelo provedor. Chegada esta resposta logo surge um novo dado: uma carta de Acácio Barradas (1) vem questionar, de forma ainda mais sistemática, a posição do jornal, por este não ter publicado o nome do juiz envolvido. “Ou seja: na aplicação da regra de ouro da notícia – que, quem, quando, onde, como e porquê – o «quem» foi pura e simplesmente escamoteado ao conhecimento dos leitores.
A que se deve a desigualdade? Que motivos determinam que no mesmo jornal e no mesmo dia dois jornalistas (certamente com o aval dos respectivos editores) apliquem critérios tão díspares para o tratamento de matérias tão semelhantes?, escreveu Acácio Barradas. Um novo dado vem acrescentar-se: António José Teixeira, director do DN, ainda respondeu, embora não a horas de publicação na crónica da semana passada: “Além das explicações já dadas pela jornalista Inês David Bastos, cumpre-me esclarecer o seguinte:
1. O princípio geral do jornalismo, logo do Diário de Notícias, é o da identificação dos sujeitos das notícias. Os casos referidos não fogem à regra. Ou não deveriam fugir à regra.
2. O que aconteceu com a não identificação do juiz jubilado não resulta de qualquer discriminação ou intenção dissimuladora/generalizadora.
3. O que aconteceu é que, apesar de todos os esforços (e foram muitos), não conseguimos chegar à identificação do referido juiz. E, não o tendo conseguido, decidimos que se justificava, apesar da contrariedade, publicar a notícia. Até porque tinha base sólida: um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça. A decisão do STJ é pública e deve ser divulgada.
4. Não desistimos de chegar à identificação do visado, apesar do STJ não estar interessado em fazê-lo, lançando a suspeita sobre a generalidade dos juizes. Continuaremos a tentar a identificação do juiz. Em resumo, não foi displicência, discriminação ou pouco zelo. Foi a impossibilidade, até agora, de identificar o sujeito do acórdão.
Mas não acabaram aqui as reacções. O Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, António Pereira Madeira, enviou um esclarecimento sobre o depoimento da jornalista transcrito na última crónica: “Na qualidade de relator do processo a que alude a notícia infra copiada, cumpre-me informar, em nome da verdade, que nunca falei, directamente ou por interposta pessoa, com jornalista algum, nomeadamente a autora da notícia, sobre o assunto em causa.
Ninguém me pediu informação alguma, sendo inteiramente falsa a afirmação produzida de que «falei para o juiz-relator, que não quis falar comigo».
Na verdade, nunca falei com tal senhora, ainda que por via telefónica, nunca a vi, ouvi, ou conheço, sequer.
Solicitando e agradecendo e a reposição da verdade.”
Pedi novos esclarecimentos à jornalista e a director. António José Teixeira escreveu: “Face ao mail do juiz conselheiro António Pereira Madeira confrontei a jornalista Inês David Bastos sobre o sucedido. É esta a sua resposta: "No dia em que redigi a notícia falei, entre muitos outros sítios, para o Supremo Tribunal de Justiça. Pedi para falar com o relator do processo, foi-me perguntado, então, qual o assunto, ao que expliquei. Pediram-me para esperar um pouco e de volta tive a resposta que o juiz conselheiro em causa estava indisponível para falar. De facto, como digo na resposta ao provedor, o relator nunca chegou a falar comigo."
Inês David Bastos não disse em qualquer texto que falou com o juiz conselheiro. O que lhe foi dito foi que o referido magistrado não queria falar.
Aproveito para registar o "zelo" do senhor juiz relator muito preocupado com as palavras que traduzem o seu silêncio e nada preocupado em informar quem foi afinal o destinatário da sentença do Supremo Tribunal de Justiça. O DN foi objecto de críticas compreensíveis pela não identificação do magistrado condenado pelo STJ, responsabilidade exclusiva deste tribunal. O senhor juiz relator poderia ter aproveitado, com vantagem, a oportunidade para este esclarecimento. Não o fez. Em nome da verdade devia tê-lo feito.”
Aqui ficam transcritos os esclarecimentos. A jornalista não afirmou que tenha falado com o relator do processo, apenas garante que o tentou fazer. A formulação pode conter alguma ambiguidade, justificando o esclarecimento do magistrado. Porém, a situação já tinha outras dimensões: a descoberta de uma identidade é também uma dimensão da verdade devida aos cidadãos. Cabe aos profissionais da informação descobrir as dimensões da verdade, estimadas editorialmente relevantes.
Acresce que todas estas rápidas reacções exigem flexibilidade na publicação. Hoje os instrumentos técnicos existem: estão na rede, na Internet, nos blogues, na possibilidade de colocar a net em sintonia e complementaridade com o jornal de papel. Aguardemos por uma mais ágil versão do jornal em linha, de acordo com os prometidos desenvolvimentos para a nova versão do DN.

(1) ver a carta em http://sotextosmesmo.blogspot.com/

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