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terça-feira, janeiro 23, 2007

PROVEDORIAS NO DN

Muros de silêncio
José Carlos Abrantes


Na resposta são descritas diferentes tentativas feitas pela jornalista e pela direcção para dar uma informação mais completa. Entender-se-ia melhor se tudo isto tivesse sido explicado aos leitores.

Na última crónica dei conta de um caso em que o nome de uma bébé havia sido repetidamente incluído em notícias e títulos do DN. O leitor Francisco Santos escreveu sobre um caso aparentemente oposto, a ocultação de um nome: “Há dias atrás, noticiaram os órgãos de comunicação social, que Luísão, um conhecido jogador de futebol foi apanhado pela Polícia a conduzir com excesso de álcool. A notícia foi repetida até à exaustão e creio que até foi debatida em mesa redonda na TV.
Ontem, sábado, pode ler-se na página 26 do DN, "Juiz condenado por conduzir com álcool."
Lida toda a notícia, verifiquei com espanto que na mesma não constava o nome do Juiz, que até é Conselheiro e Jubilado !
Será que o DN não conseguiu a identificação, ou há alguma lei que impeça a publicação do nome da pessoa em causa, que até foi condenada ?
Pelos vistos, senhor Provedor, sempre é verdade que somos todos iguais, mas há uns mais iguais do que outros !
O que levou o DN a esta omissão ? Os leitores não têm direito à informação?
A jornalista, autora da notícia, deu razões o nome não ter sido incluído: “A notícia em causa sobre o juiz-conselheiro condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça por condução sob o efeito do álcool foi feita com base num acórdão deste mesmo tribunal. O Supremo tem, por regra, não identificar o arguido, embora o faça algumas vezes (nunca percebi bem o critério).
No acórdão, o juiz conselheiro está apenas identificado como AA, residente no Porto, com residência em Guimarães, também, e já jubilado. Todas estas informações constavam da peça.
É óbvio que eu tinha todo o interesse em colocar o nome do juiz-conselheiro e fiz esforços para que tal acontecesse. Falei para o juiz relator, que não quis falar comigo. Falei para o Conselho Superior da Magistratura, que disse desconhecer o nome do juiz (o que eu não acredito, mas enfim...), falei com dois juízes do Supremo que me disseram ter conhecimento, de facto, desse caso, mas que preferiram "não falar em nomes".
Perante isto, pedi mesmo ajuda à direcção de informação, que chegou, inclusivé, a tentar falar com o presidente do Supremo, que esteve sempre indisponível. Falou também este membro da direcção com dois conselheiros seus conhecidos. Mas, mais uma vez, nenhum quis dizer o nome.
Deixe-me ainda dizer-lhe que até contactei os órgãos de comunicação social de Bragança (onde foi interceptado o juiz) para saber se na altura o caso foi noticiado. Não tinha sido, disseram-me, e mais uma vez os meus esforços se revelaram infrutíferos, para muita pena minha.
Em suma, caro Provedor, reitero que eu tinha todo o interesse em divulgar o nome do conselheiro. Não o consegui...com muita pena, repito.”
Afinal, o jornal não ocultou uma informação que possuía. Antes a tentou obter, sem conseguir. Na resposta são descritas diferentes tentativas feitas pela jornalista e pela direcção para dar uma informação mais completa. Entender-se-ia melhor se tudo isto tivesse sido explicado aos leitores. Se as condições em que a notícia foi produzida tivessem sido publicadas, como foi feito agora, a suspeição não teria fundamento. Outro leitor, Acácio Barradas, que desempenhou funções de jornalista e editor do Diário de Notícias, enviou uma carta ao provedor sobre o mesmo assunto, questionando os processos editoriais e a aparente assimetria das decisões. A carta estranha os procedimentos, supostamente contraditórios, nas duas diferentes editorias (desporto e sociedade). Teria sido desnecessário receber estes dois protestos de leitores, embora a essência do seu questionamento tenha sido esvaziada pela resposta da jornalista. Mais vale dizer aos leitores: tentámos obter a informação, mas um muro de silêncio levantou-se à volta do juiz infractor. Dar a notícia pode implicar também fornecer aos leitores informação sobre as atitudes das fontes.
Nota: A carta ao provedor escrita por Acácio Barradas foi recebida já depois de obter a resposta da jornalista. Infelizmente, não pode ser publicada na íntegra por ser demasiado extensa. A carta retoma, no essencial, a questão formulada pelo primeiro leitor citado. Publico-a integralmente no blogue Só Textos


BLOCO NOTAS


Faltou o discurso
O leitor José Teles escreveu sobre o discurso do Presidente da República: “Sou pensionista, desde há alguns dias. E desde há alguns meses compro o DN com alguma regularidade, duas ou três vezes por semana. Comprei ontem, que
queria ler a comunicação do Presidente, de que toda gente falava, preto no branco.
Pois não tinham a comunicação. Não tinham o que ele tinha dito, apenas o que os vossos repórteres achavam que ele tinha dito. Algumas citações, muita interpretação jornalística e comentários políticos, mas quanto ao discurso, simples e inteiro, para poder eu próprio tirar as minhas conclusões, nada, em parte nenhuma, nem mesmo em letra pequena.
Acho mal. Tive direito a várias páginas sobre o discurso, não me deixaram tomar conhecimento dele, que era o que eu procurava, a razão por que comprei ontem o jornal. Sinto-me frustrado.”

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A editora da secção Nacional respondeu “(....) O leitor queixa-se de que o DN não "tinha a comunicação" do Presidente da República. A meu ver, incorre num equívoco, a menos que estivesse na sua expectativa ler a mensagem na íntegra nas páginas do DN. Na verdade, o texto assinado por Paula Sá é, precisamente, um relato da comunicação de Ano Novo do Presidente da República - em que algumas ideias são explanadas através de citações entre aspas e outras através da opção pelo discurso indirecto. O texto não tem comentários políticos e o próprio título é absolutamente factual. "Serei exigente quanto aos resultados", disse Cavaco. Penso que, neste caso, o leitor não tem razão.”
Compreende-se a posição da editora. Um jornal não é o órgão oficial do Governo ou da Presidência da República. Os jornalistas têm legitimidade para dar aos leitores o essencial do pensamento do Presidente da República sem o adulterarem. Porém, pode reconhecer-se, simultaneamente, que o leitor poderá sentir-se frustrado por não encontrar o discursos na íntegra. Há jornais que o fazem, uma ou outra vez. Na sexta feira, dia 19 de Janeiro, o jornal Le Monde inseriu o discurso do presidente Jacques Chirac, na íntegra, sobre os Justos franceses, agora homenageados no Panteão. Estes ajudaram a fugir da deportação os judeus perseguidos pelos nazis. Ou seja, a notícia era o discurso presidencial, na íntegra, numa página inteira e numa secção intitulada Documento. Será que um discurso de Ano novo, do Presidente da República, não poderia ter um tratamento semelhante? É correcto o que o Le Monde fez, pese embora alguma aversão de alguns jornalistas aos documentos em bruto.

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