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terça-feira, junho 13, 2006

PROVEDORIAS NO DN

Eis a cronica de ontem, que, por estar fora não pude colocar atempadamente.

Escrever notícia e opinião
José Carlos Abrantes

Dominar formas de escrita diferenciadas é uma vantagem. Lembro o caso do The Economist: nem os textos, nem os editoriais são assinados, deixando uma incógnita sobre a sua autoria.

Recebi o seguinte e-mail de um leitor (1) : “Escrevo esta mensagem para contestar o tratamento noticioso dado pelo DN à acção de propaganda promovida na passada terça-feira, dia 30 de Maio, pela vereadora do CDS/PP na CML, Maria José Nogueira Pinto, a propósito das anunciadas "linhas mestras de intervenção" para recuperação da zona Baixa-Chiado, propostas pelo respectivo Comissariado.
Noticiadas no dia seguinte 31 de Maio, as referidas "linhas-mestras" foram anunciadas não numa vulgar conferência de imprensa, como seria usual, mas numa sessão para a qual a referida vereadora, inteligentemente, convidou os directores dos principais jornais nacionais (fazendo-os sentir como se tivessem tido acesso a informação privilegiada).
(,,,) Há que conceder, que os objectivos da vereadora foram atingidos: Correio da Manhã e Diário de Notícias, publicaram notícias escritas pelos próprios directores; Público, deu abertura da secção local.(,,,) Mas, se todos divulgaram, o DN foi mais longe com notícia assinada pelo director - "Um projecto para 'bombar' o coração da Baixa-Chiado" (um título que o próprio Comissariado não desdenharia certamente), antecedido de editorial "Mais Cidade", também do director António José Teixeira.
Neste editorial constam passagens (pérolas) como "seis cidadãos têm dedicado GENEROSAMENTE ..." parte do seu tempo a "reinventar o coração de Lisboa". Se estes cidadãos ("iluminados" ou "seis magníficos", a expressão é minha, mas caberia no espírito do texto) o fazem por GENEROSIDADE, não o sei, mas as verbas orçamentadas para os custos do Comissariado (...) não devem certamente sair do respectivo bolso.
Eu próprio sou jornalista (..) Não tenho qualquer pretensão de ensinar ética ou deontologia ao director do DN, António José Teixeira, jornalista que me tenho habituado a respeitar ao longo dos anos, ao ponto de se ter tornado uma referência actual.
Gostaria assim de ver melhor esclarecida a questão da opinião e informação numa mesma edição de jornal Certo é que o por mim mencionado respeito (e credibilidade) sofreu um forte abalo.”

António José Teixeira enviou o esclarecimento seguinte: “Sou jornalista antes de ser director do DN. Podia ser outra, mas é esta a minha qualificação profissional. Por isso mesmo, o director pode, e deve, comportar-se como jornalista em qualquer situação. Tendo tido oportunidade de conhecer o trabalho do comissariado para a revitalização da Baixa pombalina de Lisboa era meu dever dá-lo a conhecer aos leitores sob a forma de notícia. Foi isso que fiz de forma substantiva e, obviamente, em articulação com a editoria respectiva.
É regra do DN, e dos jornais em geral, separar a notícia da opinião. Daí que a descrição dos planos do comissariado não deva confundir-se com a opinião editorial do jornal, seja de um qualquer redactor, editor ou director. Foi isso que aconteceu. O editorial reflecte uma opinião, obviamente discutível como qualquer outra. “Confusão” ou “mistura” seria incorporar adjectivos na confecção da notícia. De um lado ficou a notícia, do outro o editorial. E não se diga que por ambas as peças terem a mesma assinatura passam por isso mesmo a ficar sob suspeita. Ao contrário, importa separar as águas. Não há qualquer problema com a diferença de opiniões sobre o (de)mérito da iniciativa. A do leitor é, obviamente, tão respeitável como a minha. Quanto à notícia, julgo que honrou o que se exige ao jornalismo.
De um modo geral, julgo que as peças noticiosas devem ser escritas por quem testemunhou os acontecimentos ou por quem está mais bem preparado para o efeito. Será que as informações recolhidas e aferidas por um qualquer jornalista resultam melhor se forem escritas por outro jornalista? Não haverá uma resposta única e definitiva. Mas concluir que quem não testemunhou, recolheu e aferiu a informação está menos bem colocado para a escrever é, no mínimo, surpreendente. É claro que muitas vezes se partilham informações, que dão origem a notícias nem sempre assinadas por quem as obteve ou que são assinadas em co-autoria. "

A interrogação do leitor incide sobre a possibilidade de uma mesma pessoa escrever um editorial e uma notícia sobre um assunto . Estes géneros são muito diferentes na escrita jornalística. Mas haverá contradição? Não vejo que um tipo de escrita contamine a outra, necessariamente. Um profissional de jornalismo faz-se escrevendo opinião, escrevendo notícias, fazendo entrevistas ou reportagens. Dominar formas de escrita diferenciadas é uma vantagem. Lembro o caso do The Economist: nem os textos, nem os editoriais são assinados, deixando uma incógnita sobre a sua autoria.

As peças devem estar distintamente posicionadas no grafismo do jornal, como é o caso: o editorial está no seu local habitual, a peça informativa abre a secção Cidades. Apreciei as dados contidos na peça noticiosa. Nela se assinalam, com indicações concretas, os projectos do comissariado para melhorar a cidade. Refere-se por exemplo a intenção de criar um Museu da Língua portuguesa . A notícia informa sobre o que irá ocorrer e que mudaria a vida dos lisboetas. Espera-se que as intenções sejam levadas a bom porto, pois, como é conhecido, nem sempre sabemos concretizar o que anunciamos.

O leitor revela ainda alguma estranheza pelo facto de este acontecimento ter sido coberto por vários directores da imprensa. Aconteceu recentemente um caso semelhante, com a apresentação dos Roteiros da Presidência da República, o que foi assinalado nalguns blogues. Cada caso é único, mas as fontes de informação e os próprios directores, terão que ponderar a oportunidade deste noticiar colectivo, a roçar o papel das agências noticiosas. Importa sublinhar que a diferença de estilos dos diferentes intervenientes não deixa dúvidas sobre a originalidade dos textos, o que é um ganho para os leitores E julgo que ambos, fontes e directores, ponderarão este equilíbrio.

Seria fácil também manifestar a minha discordância sobre a “generosidade” das pessoas no quadro do trabalho profissional e remunerado, o que o leitor sublinha. No entanto, o provedor não trata das opiniões, e logo do editorial, mas apenas das notícias publicadas. Parece que esta foi informativa. O editorial adopta, como é da sua natureza, um tom diferente.

(1) Pode ler o texto integral do e-mail em http://sotextosmesmo.blogspot.com/. O leitor identificou-se mas pediu para guardar o anonimato.

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