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domingo, junho 25, 2006

DIAS DE CÃO

Eduardo Cintra Torres, no Olho Vivo escreve sobre A TV do Futebol. além do protesto do PSD junto da RTP e da reacção da ERC. pelo tempo que vivemos destaco a parte relativa ao futebol na televisão.

"O livro A TV do Futebol, coordenado por Felisbela Lopes e Sara Pereira (Campo das Letras, 2006), e para o qual contribuí com um texto sobre o "O Telepatriotismo durante o Euro 2004", é uma colectânea invulgar de textos de pessoas que, por razões profissionais, dão atenção à televisão. Para ela escreveram, na perspectiva do Mundial de 2006, vários jornalistas da RTP, SIC, TVI e Sport TV e também alguns académicos e estudiosos. Na primeira parte, responsáveis dos quatro canais referidos apresentam o planeamento da cobertura do Mundial. A seguir, jornalistas reflectem sobre futebol e jornalismo desportivo. Nas partes finais inserem-se perspectivas académicas e Sara Pereira, da Universidade do Minho, e Eduardo Jorge Madureira, director pedagógico do PÚBLICO na Escola, escrevem sobre a possibilidade de se aproveitar um evento desta dimensão desportiva para descodificar com os mais novos os processos técnicos e ideológicos da comunicação mediática.
Destaco aqui o discurso de responsáveis do desporto dos canais generalistas a respeito do telepatriotismo e da emocionalidade dos jornalistas nas emissões do Mundial. O livro mostra haver mais do que um ponto de vista sobre o assunto entre os jornalistas desportivos.
Miguel Prates, chefe da redacção da Sport TV, limita-se a indicar as emissões do seu canal (18,6% em directo da Alemanha e 700 horas, ou 81,4%, em estúdio ou em diferido), sem adiantar justificações ideológicas para a programação. Isto porque se trata de um canal temático, no qual o futebol tem prioridade sobre o patriotismo.
E quanto aos generalistas? Luís Sobral, editor de desporto da TVI, fala em "exclusão" pela FIFA dos canais que não pagaram direitos, e lamenta não poder sequer mostrar "aquilo que se passa depois do jogo", que para ele é "quantas vezes tão ou mais relevante do que os 90 minutos".
Da SIC, António Cancela, editor de desporto, explica que as emissões-lençol se devem a razões financeiras: "Ao fim e ao cabo, só por si a hora e meia que dura uma partida não chega para valorizar um investimento oneroso". Daí que se "agreguem" a um jogo "acontecimentos marginais". Quanto ao tipo de emissão, diz que "todos devemos dar as mãos à Selecção".
Também João Pedro Mendonça, editor de desporto da RTP, considera que "dificilmente uma boa cobertura do Mundial será apenas uma sucessão de transmissões de jogos, golos e estatísticas". É preciso "dar a conhecer" a "cada português" "o orgulho", os "sentimentos", as "ansiedades, as alegrias e as tristezas". Também da RTP, o subdirector Carlos Daniel é o que mais justifica ideológica e eticamente o jornalismo telepatriótico nos generalistas. Para ele, "uma componente de emoção mais vincada" é algo que "se exige aos jornalista". Trocando a emoção própria do evento pela emoção do discurso jornalístico, Daniel recusa a "visão redutora" de que o jornalista "exagera na emoção que confere ao seu discurso". Justifica-se, portanto, que vista a camisola ou o cachecol. Outros jornalistas desportivos e narradores de jogos defendem no livro o mesmo ponto de vista, tentando, como Daniel, naturalizar a sua predisposição para fazerem emissões telepatrióticas e que ignoram regras básicas do jornalismo. Mas David Borges, apresentador de O Dia Seguinte (SICN), manifesta-se contrário aos "comunicadores de cachecol amarrado ao pulso, dirigindo circos emocionais" e ao "nacionalismo não-reflectido que ninguém aconselha a conter"."