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domingo, maio 28, 2006

REFORÇAR OS SINAIS DE PROGRESSÃO

No jornalismo, como noutros domínios, existe uma tendência, muito portuguesa, de tudo arrasar, de considerar que este país não tem direito a qualquer dignidade. Faz-se como se não existissem profissionais de qualidade, como se o país fosse um cesto de ovos podres ou um mundo de inacção. Claro, tudo isto existe, ou, melhor, coexiste com outras intervenções de qualidade, com outros que tentam remar, ainda que, teimosamente, contra a maré. As sociedades são feitas de pluralidade nas acções, de diversidade nas representações, de tensões entre os que desejam tornar actuante algo e os que desejam o contrário, os que são indiferentes ou, muitas vezes, legitimamente, anseiam por uma terceira via.

Um colunista do Público, Rui Tavares, escreveu, sábado, dia 27, uma análise a um debate recente sobre o ensino dos clássicos, na escola, realizado na Casa Fernando Pessoa: “E, por isso, quando me levantei para falar só fui capaz de debitar a lista de clássicos que estudámos na minha escola secundária em finais da década de 80, numa escola pública que nunca entrou sequer nas 200 melhores do ranking e em plena terra queimada dos "filhos de Rousseau": o cancioneiro galaico-português, Fernão Lopes, Gil Vicente, a tragédia Castro, a lírica e a épica camoniana, a parenética vieiriana e por aí adiante até Herculano, Garrett, Camilo, Eça e - ai de nós - Fernando Pessoa. Pelo menos estes, quem quis aprender aprendeu.”

E mais à frente: “A elite portuguesa está plenamente convencida de que na escola se ensina a jogar playstation. Nenhuma informação em contrário penetrará nessa barreira ideológica, social, cognitiva. Pergunto se não será esse mesmo ciclo a definição de um estado falhado que pretendemos todos evitar: aquele que se recusa a identificar os sinais da sua progressão, a aprender com eles e a fazer por reforçá-los?” Algo semelhante está a acontecer com o jornalismo. E tal não pode ocorrer pela importância social que este tem. Como não pode acontecer na educação, onde se procura, constantemente, fazer crer que vivemos na pré-história.